Rádio Vibe Ploc

09 junho 2009

As lágrimas que não caíram.

-Quando foi a última vez que você me viu chorar?
-Sabe que não sei Cris... Aliás, nunca te vi chorar... Acho que sempre te vi para cima, sempre alegre... Só que quando você ficava triste, nunca vi uma lágrima em seu rosto.
-Cara, infelizmente, você está certo, acho que também nunca chorei de derramar lágrimas...

Minha mãe conta que, quando nasci, o médico me deu a palmadinha e na hora só fiz aquele chororô, mas sem uma lágrima. O tempo passou e minha mãe sempre disse que quando chorava, não saia uma lágrima sequer. Um dia, ela fez a maior pirraça comigo, para ver se caia uma lágrima. Nada.

Ela me levou no médico e disse que as glândulas lacrimais estavam lá, porém não funcionava. Ele disse que ate era normal, acreditando que quando fosse necessário eu iria verter lágrimas.

Quando meu irmão jogou meu boneco do Cavaleiro do Zodíaco fora, fiquei abatido, não chorei. Quando morreu a Tia Mimi, não chorei... Quando acabou vários programas de TV que eu gostava, nada. E todas as vezes minha mãe chorava. Parece que ela o fazia por nós dois.

Quando meu pai morreu, foi aquele baque. Chorei, mas nenhuma lágrima caiu. Eu estava resignado com essa situação incomoda. Quando terminei com a Hellen, entrei em depressão e nada. Lágrimas não fazem parte do meu viver...

-Mas você sente alguma dor? Isso te incomoda?
-Na verdade? Um pouco...

Queria ter ficado puto demais com meu irmão e xingado ele pelo meu boneco, era meu boneco!!! Mas pensei: é apenas mais um boneco. A Tia Mimi era minha segunda mãe e eu queria ter ficado arrasado por isso ter acontecido... E novamente refleti: Infelizmente chegou a hora dela. Eu amava Bozo, Clube da Criança, Cavaleiros do Zodíaco, Piratas do Espaço... todos acabaram. E achei que tudo tinha fim mesmo.

Meu pai era o mestre da arrogância, porém gostava de zoar com a gente. Sempre estúpido e carinhoso, do modo errôneo dele de amar sem medidas aos filhos. Ele sempre foi apaixonado por todos nós. Quando soube que estava com câncer, lutou com unhas e dentes por nossos direitos, assim como lutou pela própria vida. No dia final, ele disse para nós sermos fortes e que eu não tivesse medo de chorar. Isso fazia bem a alma. Ele se foi e estava perdido. Sai andando pelo bairro, só voltei a casa à noite, pedi um tempo para refletir. Nem ensaio de lágrimas. Resignei-me a pensar nas coisas boas que ele fizera a vida toda.

A Hellen sempre me chamava de insensível e chato, ela queria que eu tentasse reagir àquela situação. Eu era muito bonito para ser insesível. ela brigou demais comigo. E era tanto amor por essa mulher, que entrei em depressão.

-Disso eu me lembro. Vàrias vezes fui em sua casa, para ver se você reagia e não se deixava abater por isso. Saímos e rimos pacas. Talvez eu tivesse que encorajar você a chorar.
-Talvez não. mas o que importa agora né. Tudo passou e eu estou aqui, relembrando isso, sem saber porque estou fazendo.

Nesse exato momento, a primeira lágrima de Cristiano caiu, escorrendo pelo alvo rosto pálido desse marmanjo. Ele senti e perguntou para mim se estava chorando. Disse que sim. Ele provou a lágrima e viu que era salgada. Outras vieram, mais fortes e mais intensas, e ele chorou mais e mais e mais. Era incrível vê-lo chorando. Ele estava feliz, afinal podia chorar como todas as pessoas. Caiu no chão de joelhos e chorou mais ainda:
-Você está bem Cris, quer ajuda?
-Só quero te agradecer Marcus, hoje me sinto feliz porque estou chorando. Agora me sinto completo. Obrigado.

Nem precisa perguntar, acabamos chorando juntos. A vida é também composta de lágrimas, só que elas podem embalar a felicidade. Nunca prenda seu choro e sua emoção. Sejamos felizes, para que também possamos chorar, de tanta alegria.

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